O espírito cativo e o homem ativo

Por hábito, as pessoas se submetem a tudo o que deseja poder – Nietzsche

Nietzsche é muitas vezes acusado de ser aquele que atacou e destruiu a verdade. Ora, como isso seria possível se a todo momento ele se diz um homem da ciência e em prol da verdade? Ele me parece, de fato, o mais sensato dos filósofos: que não se acanha em usar a razão para solapar toda crença e toda fé – inclusive a fé na razão.

Um dos movimentos de seu método é o incansável trabalho de detectar e discernir os hábitos que se camuflam como verdades. Neste movimento, para que surja aos olhos com mais clareza, ele cria conceitos, ou melhor, personagens, que condensam uma pluralidade de passados que se ocultam por trás de algo cotidiano. É assim, por exemplo, que ele nos apresenta o espírito cativo:

O espírito cativo não assume uma posição por esta ou aquela razão, mas somente por hábito; ele é cristão, por exemplo, não por ter conhecido as diversas religiões e ter escolhido entre elas; ele é inglês, não por haver se decidido pela Inglaterra, mas deparou com o cristianismo e o modo de ser inglês e os adotou sem razão, como alguém que, nascendo numa região vinícola, torna-se bebedor de vinho” (HH § 226).

Mas, como diz o subtítulo de Humano, demasiado humano, Nietzsche escreve para os espíritos livres – outro conceito/personagem. O espírito livre, oposto ao cativo, é aquele que conseguiu se desvencilhar da tradição, do hábito; não se deixa regular, ou ser definido, por sua posição, seu pertencimento. Poderíamos dizer que ele é apatriado: da nação, da tradição, da fé. Não é expatriado pois seu exílio é autoimposto, não por opção, mas por necessidade. A verdade, a sua verdade – sem maiúsculas -, lhe cobra o preço do afastamento e da solidão, muitas vezes do desprezo e da infelicidade.

É a razão, justamente, que faz a diferenciação entre o espírito livre e o espírito cativo. Se por um lado o espírito livre toma todas as dores que forem necessárias em busca das razões de seus hábitos, o cativo não tem outra coisa que não o próprio hábito como razão. E essa atitude do espírito livre não é uma mera idiossincrasia. Por trás dela há sempre um esforço de libertação. Esse é um dos pontos chave de Nietzsche: a busca por razões, ou, melhor, a genealogia e o filosofar com o martelo, é, em si, um ato revolucionário. Pois todo estrutura social que tem uma duração, que se baseia em tradições e doutrinas, tem um fundo de hábito e fé:

Todos os Estados e ordens da sociedade: as classes, o matrimônio, a educação, o direito, adquirem força e duração apenas da fé que neles têm os espíritos cativos – ou seja, da ausência de razões, pelo menos da recusa em inquirir por razões. Isso os espíritos cativos não gostam de admitir e sentem que é um pudendum [algo de que se envergonhar]” (HH §227).

Ora, mas então por que motivo o hábito e a fé prevalecem e adquirem duração? Pois a verdade que devém da fé e do hábito não se baseia na razão, mas sim na utilidade. Assim dizem as figuras de autoridade (a Igreja, o Estado, o pai): “aja de tal maneira e lhe garanto que será recompensado, mas não pense muito sobre isso”. E é assim que o espírito cativo se torna também homem ativo. Como a verdade cativa se baseia na utilidade, a atividade dos espíritos cativos se torna imperativa: é seu único barco de salvação. A estagnação ou a interrupção do hábito mecânico significa a ruptura de toda sua estrutura social e subjetiva. Não há espaço para a vida contemplativa, pois se entregar à inutilidade é ir contra a figura da autoridade que lhe exige sempre uma produção:

“A infelicidade dos homens ativos é que sua atividade é quase sempre um pouco irracional. Não se pode perguntar ao banqueiro acumulador de dinheiro, por exemplo, pelo objetivo de sua atividade incessante: ela é irracional. Os homens ativos rolam como pedra, conforme a estupidez mecânica. – Todos os homens se dividem, em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja; estadista, comerciante, funcionário ou erudito” (HH §283).

O espírito livre é aquele que consegue se entregar ao ócio, o maior dos pecados possíveis em uma era onde a produção e a utilidade são talvez as única verdades que permanecem firme. Mas, se entregar ao ócio significa também pagar o preço do pecado: a miséria, a exclusão, o desdém. E quem estará disposto a isso?

Referências:

HH: Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

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