Prolegômenos a um estudo da catástrofe

michaelwesely-9aug01-2may03momaEste é um breve esboço de uma possível metodologia que, assim espero, será ampliado futuramente. Trata-se de um cuidado, talvez exagerado, em estabelecer um traçado mínimo para investigar mais a fundo a questão da catástrofe. Por ser um esboço, nenhuma das ideias aqui tratadas estão suficientemente desenvolvidas e não tenho a pretensão de que estes pontos permaneçam válidos durante todo o percurso. Mas é preciso começar de algum lugar.

 

1. A catástrofe já ocorreu

Para Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro a catástrofe já está dada. Pane generalizada dos sistemas ambientais, econômicos, sociais. A questão não é, portanto, como evitá-la, mas o que fazer dela. Uma catástrofe lenta, que se estende para além da duração do indivíduo, afeta a raça, o planeta, a história. Cuja a magnitude a torna perceptível, mas não sensível. Que só é avaliada por projeções; como uma energia escura da qual só podemos observar os efeitos, mas nunca tocá-la; nunca apreendê-la em sua totalidade.

O Antropoceno é a época geológica do homem. É o mais recente evento na escala que subdivide as etapas da terra desde sua formação até os dias de hoje. Como espécie, atingimos um nível de modificação do ambiente que se tornou irreversível e que deixará marcas suficientemente duradouras para figurar nessa escala do tempo geológico, dos milhões e dos bilhões de anos: muito pouco humana. O homem deixa de ser uma espécie que habita o globo e passa a ser uma força geológica, como o vento ou as marés. E nessa mudança de natureza do homem, de espécie para força, muda-se também a natureza do tempo que habitamos. As ações, sejam coletivas ou individuais, se distendem e se prolongam por um tempo muito maior do que a de uma vida humana, ou mesmo a de gerações. É o tempo da degradação do urânio, dos ciclos de carbono. Não mais um tempo histórico, mas cosmológico.  Assim, o antropoceno:

“(…) designa um novo ‘tempo’, ou antes, um novo tempo do tempo – um novo conceito e uma nova experiência de historicidade -, no qual a diferença de magnitude entre a escala da história humana e as escalas cronológicas da biologia e da geofísica diminui dramaticamente, senão mesmo tendeu a se inverter: o ambiente muda mais depressa que a sociedade, e o futuro próximo se torna, com isso, não só cada vez mais imprevisível, como, talvez, cada vez mais impossível” (Danowski e Viveiros de Castro, p. 107).

Essa época se mostra o contrário daquele sonho sonhado pelos modernos: a merecida chegada do homem ao seu destino final de possuidor da natureza e autônomo às suas intempéries. Se chegamos a dar nome a uma época geológica não foi por nossos méritos, mas por nossos fracassos. O que se revela é o destrilhamento desse projeto que tenta sobreviver por um aceleracionismo cada vez mais intenso que o descola da superfície do presente. Mas confrontado a esse horizonte da catástrofe, inapreensível e ininteligível, desmorona também  a possibilidade de um futuro, ou, sequer, de se pensar um futuro. Assistimos ao destrilhamento do tempo, a uma “instabilidade metatemporal”:

“Essa instabilidade metatemporal se conjuga com sua súbita insuficiência de mundo gerando em todos nós algo como a experiência de uma decomposição do tempo (fim) e do espaço (mundo), e o surpreendente rebaixamento das duas grandes formas condicionantes da sensibilidade ao estatuto de formas condicionadas pela ação humana.” (Danowski e Viveiros de Castro, pp. 19-20)

2. Embora seja global, a catástrofe é também local

A catástrofe ambiental que hoje passamos não é a primeira “catástrofe derradeira” que atravessamos. A humanidade (entidade entendida como uma unidade que agrupa determinado grupo que partilha determinadas características – características que mudam ao longo do tempo e pelos critérios que se adota – e sempre se pauta no decalque de um outro, na negação de um outro, mas que, mesmo assim, se pretende universal) já passou por outras experiências de viver à beira de um aniquilamento súbito: experiência talvez inaugurada pela era atômica. Mas de fato, outras humanidades, que não coincidentemente, estão no eixo excluído da “humanidade padrão”, já passaram por esse aniquilamento e pelo “fim do mundo” efetivamente. A hecatombe etnocida proporcionada pelos europeus aos povos indígenas é uma evidência mais do que clara da existência de catástrofes e “fins” múltiplos que atuam em diversos níveis: dos meios materiais; das formas de subjetividade; da memória… Anunciar, portanto, essa catástrofe como única e derradeira, como se ela fosse sentida por todos da mesma forma, como um evento único e unidimensional, é adotar uma posição confortavelmente neutra, da pretensa universalidade da razão europeia. Razão esta que nada tem de incólume.

Marco Antonio Valentim, ao falar da sobrenatureza da catástrofe, nos mostra como essa filosofia moderna (coloca dois marcos: Kant e Husserl) que busca o “isolamento metafísico do homem” é “tacitamente, etno-eco-cida”; ou ainda: “um dispositivo espiritual de aniquilação ontológica de outrem”. Ele ataca, assim, o lugar de neutralidade que a filosofia do Ocidente moderno auto assumiu; numa busca de um campo transcendental que abre um abismo de sentido entre consciência e realidade:


“Longe de apontar para algo remoto, essa hipótese já era em si mesma aniquiladora: sabemos que ao conceito de ‘mundo exterior’, a esse tópos supostamente neutro, era dissolvida (mais que reduzida) e aniquilada (mais que simplesmente ‘colocada entre parenteses’) uma multiplicidade inumerável de mundos divergentes, todos eles neutralizados em sua potência própria de mundanização pela ‘consciência absoluta’, emancipada, do povo universal” (Valentim, p. 2)

Supor que a catástrofe é apenas “nossa” e portanto, única e o “fim”, “inédito”, é assumir essa posição aniquiladora de mundos, pois supõem que apenas o nosso mundo exista para ser aniquilado. Seria, portanto, necessário atentar, antes de tudo, a uma questão pouco colocada: a questão do nós. Como apontam Danowski e Viveiros de Castro:

“Crucialmente, entretanto, esse é um ponto muito pouco notado pelos discursos instalados na perspectiva do ocidente moderno –  sejam eles de inspiração ‘naturalista’, ‘humanista’ ou ‘pós-humanista’ – a questão de saber quem é o ‘nós’, o que se entende por ‘humano’ ou ‘pessoa’ em outros coletivos consensualmente considerados (por ‘nós’) como humanos, raramente é colocada, e de qualquer modo jamais ultrapassa o limite da espécie enquanto categoria taxonômica extensiva” (Danowski e Viveiros de Castro, p 33).

3. Ampliar as possibilidades

Sem dúvida a catástrofe diz respeito à destruição de algo. A um desmoronamento, a um esgotamento. Entretanto, analisá-la pela via da negação, como “resposta” a uma ação, como o oposto daquilo que está em um estado “não-catastrófico”, em equilíbrio, em florescimento, seria dar, por vias escusas, uma existência em si à catástrofe – algo que, como já mostramos, não queremos fazer. Seria necessário, portanto, adotar uma via que não a da negação dialética. Talvez algo próximo do método bergsoniano (obviamente, sem a pretensão ontológica), que Peter Pál Pelbart resume da seguinte maneira:

“(…) o projeto essencial de Bergson consistiria em pensar as diferenças de natureza independente de qualquer forma de negação. A negação trabalha com conceitos abstratos demais: ao invés de partir das diferenças de natureza, entre duas ordens ou seres, constrói antes uma ideia de ordem ou de ser para em seguida contrapor-lhe uma outra, a desordem ou o não-ser em geral (…) Não se recompõe o real através da síntese entre vistas gerais e opostas (por exemplo Uno e Múltiplo, resutaltando no Devir), pois elas deixam escapar tanto as nuances quantos os graus, a fina percepção da multiplicidade, o ‘qual’, o ‘quanto’, o ‘como’” (p. 36).

A intenção é, portanto, assumir o caráter múltiplo da catástrofe, que não se resume a um evento pontual e rastreável, que não se desenrola por uma série causal e sucessiva, mas assume uma infinidade de formas e de durações. Que é antes de tudo efeito, ou melhor, efeitos. Efeito sentido nos corpos que sofrem os desdobramentos da catástrofe ecológica, mas também os efeitos da catástrofe na linguagem, nas formas de vida, nas produções de subjetividade, nas aberturas (ou encerramentos) de possíveis. Talvez, pensar a catástrofe como acontecimento. Assim como Bruno Schulz, retomado por Pelbart, partir:

(…) dessa diferença entre evento e acontecimento, entre o domínio dos fatos enfileiráveis na ordem contínua e sucessiva de uma história, e o tempo dos acontecimentos sem lugar, errantes, suspenso no ar. Estes que chegam sempre tarde demais, que estão sempre excessivos (mesmo na sua indigência), que comportam uma repetição inesgotável, que estão sempre por vir” PELBART, p. 94).

Ampliar os sentidos e as possibilidades do horizonte da catástrofe talvez seja uma saída a um tempo cada vez mais impossível.

 

Referências:

DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir?: Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2014

PELBART, Peter Pál. O tempo não-reconciliado. São Paulo: Perspectiva, 2010.

VALENTIM, Marco Antonio. A sobrenatureza da catástrofe. Disponível: http://www.academia.edu/9745563/A_sobrenatureza_da_cat%C3%A1strofe_vers%C3%A3o_Landa_

3 pensamentos sobre “Prolegômenos a um estudo da catástrofe

  1. Excelente texto. Visto isso, espero que nos próximos posts esse horizonte de aproxime de mim que coloquei um outro ser nesse mundo catastrófico 😉❤

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  2. Veja “Capitalismo como religião”, de Walter Benjamin. É um texto de juventude que não foi terminado, mas aponta para a degradação da natureza em face das pessoas não como “citadinos”, mas como “consumidores”.

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